IA vai substituir programadores? Sim. E eu explico o porquê

Semana passada, num grupo de WhatsApp, um amigo me mandou a pergunta que não sai da cabeça de ninguém de TI: “e aí, a IA vai substituir programadores?”. Todo mundo esperava que eu, que vivo disso, fosse acalmar a galera. Pois vou fazer o contrário: eu acho que sim. A programação, o ato de escrever código, vai ser toda substituída. Mas calma, larga essa demissão imaginária que a história não acaba aí.

Minha tese é simples: o código vai, a TI fica. E existe uma cena antiga da nossa própria história que explica isso direitinho. Calma que eu explico.

O que os estudos dizem sobre IA e programação

Primeiro, vamos aos fatos, porque esse debate anda cheio de achismo dos dois lados.

Do lado do “a IA é imbatível”: um experimento controlado publicado por pesquisadores do MIT, Princeton e Microsoft mostrou que desenvolvedores com o GitHub Copilot completaram uma tarefa 55,8% mais rápido que o grupo sem a ferramenta. Mais da metade do tempo, cortado.

Do lado do “calma lá”: um estudo randomizado do METR, de 2025, pegou desenvolvedores experientes trabalhando nos próprios projetos open source e achou o oposto: com IA eles ficaram 19% MAIS LENTOS, e o mais curioso é que eles achavam que tinham sido 20% mais rápidos (a ilusão é real, acontece rs).

E tem o dado que mais me impressionou: o estudo “Canaries in the Coal Mine?”, de Erik Brynjolfsson e equipe, em Stanford, analisou dados de folha de pagamento de milhões de trabalhadores americanos e encontrou queda de 19% no emprego de jovens de 22 a 25 anos nas ocupações mais expostas à IA (programação incluída), enquanto os profissionais experientes seguem numa boa. A porta de entrada está fechando primeiro. E o próprio estudo faz uma distinção que é o coração deste artigo: o emprego cai onde a IA substitui a tarefa, e se mantém ou cresce onde ela complementa o trabalho.

Calma que eu explico: a planilha e o guarda-livros

Sabe qual profissão a planilha eletrônica matou? Não foi a de contador. Foi a de guarda-livros, aquele profissional que passava o dia lançando números à mão em livros enormes. A conta em si virou commodity. Mas o contador, que interpreta a conta, assina embaixo e responde por ela, esse nunca teve tanto trabalho.

O código é o novo lançamento contábil. Escrever a função, o CRUD, o teste unitário: isso a IA já faz, e vai fazer cada vez melhor e mais barato. Insistir em competir com ela nisso é competir com a planilha no lançamento de números. Sério, para e pensa: você quer ser o guarda-livros ou o contador dessa história?

É por isso que eu digo que a programação em si será toda substituída. Não é palpite alarmista; é olhar pra direção das evidências (e pra minha própria rotina: eu já escrevi por aqui sobre vibe coding e git worktree, com agentes escrevendo código em paralelo enquanto eu decido o que entra).

O futuro da programação: o que sobra quando o código se escreve sozinho

Se o ato de digitar código vai embora, o que sobra? Sobra tudo o que vem antes e depois do código. Entender o problema de verdade, escolher a arquitetura, definir limites, revisar, integrar, responder pelo resultado. Uma análise do Fórum Econômico Mundial de janeiro aponta exatamente isso: 65% dos desenvolvedores esperam que o papel deles seja redefinido rumo à arquitetura e decisões apoiadas por IA, com a parte repetitiva automatizada.

Repara que é a mesma distinção do estudo de Stanford: substituição na tarefa, coexistência na profissão. O desenvolvedor que só transforma ticket em código está na rota da substituição. O engenheiro que transforma problema de negócio em solução, e usa a IA como uma equipe inteira de guarda-livros incansáveis, esse fica.

Não compita com a IA na tarefa; comande a IA na profissão.

Empregos de TI que coexistem com a IA

E as outras áreas de TI? Aí a coisa fica mais interessante, porque várias delas são feitas justamente do que a IA não entrega sozinha: contexto, responsabilidade e confiança.

Segurança da informação é o exemplo mais óbvio: quanto mais código gerado por IA, mais superfície de ataque e mais auditoria necessária (quem vai conferir o que os agentes escreveram?). Arquitetura e engenharia de plataforma seguem fortes, porque alguém precisa decidir onde tudo isso roda e quanto custa. Dados e produto também: a IA responde, mas a pergunta certa continua sendo trabalho humano. E a própria OCDE, que estima 92 milhões de empregos perdidos pra IA no mundo, divide o palco com o Fórum Econômico Mundial projetando o dobro disso em funções novas. Destruição e criação, ao mesmo tempo.

Não é garantia pra ninguém dormir tranquilo, que fique claro. É um mapa: as áreas que coexistem com a IA são as que carregam julgamento e responsabilidade, não digitação. Já escrevi sobre as habilidades essenciais pra 2030, e olha… a lista envelheceu bem.

A IA varre a tarefa; ela não assina a responsabilidade.

Perguntas frequentes

A IA já substitui programadores hoje?
Nas tarefas, sim: geração de código rotineiro, testes, refatoração. Na profissão, ainda não: o estudo do METR mostrou que até desenvolvedores experientes ficam mais lentos com IA em código complexo. Mas o efeito já aparece na contratação de iniciantes, como mostrou Stanford.

Vale a pena aprender a programar em 2026?
Vale, mas com outro objetivo. Aprender a programar hoje é como contador aprender contabilidade: você precisa entender o que a máquina faz pra poder revisar, decidir e assumir a responsabilidade. O que mudou é que digitar código deixou de ser o produto final.

Quais áreas de TI são mais seguras diante da IA?
As que a IA complementa em vez de substituir: segurança da informação, arquitetura de software, engenharia de plataforma, dados e produto. O padrão comum: julgamento, contexto de negócio e responsabilidade pelo resultado.

Os estudos não se contradizem (55% mais rápido vs 19% mais lento)?
Eles medem coisas diferentes: tarefa isolada e simples num caso, projeto real e complexo no outro. Pra mim, os dois juntos contam a mesma história: a IA já domina o código commodity e ainda tropeça no contexto. Adivinha qual metade do trabalho sobra pra gente?

O código vai o caminho do guarda-livros; fica quem pensa, decide e assina.

Abraços, Fellipe Soares

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